quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Papalagui (ou Chiútí em Maleku)

O Papalagui é um livro que me foi recomendado pelo sr. Brolock e depois me foi oferecido pela Asita (obrigada!). Consiste num conjunto de discursos de Tuiavii, chefe da tribo de Tiavéa, discursos esses em que Tuiavii relata o que observou da vida dos Papalagui (pessoas nao indígenas) aquando da sua viagem a Europa. Estes discursos destinavam-se ás pessoas da sua tribo, nunca foi seu objectivo vê-los publicados (aliás, acho que o foram sem o seu consentimento).
Tuiavii nunca havia tido qualquer tipo de contacto com o nosso estilo de vida, para além de os discursos datarem de algumas dezenas de anos atrás. Nesse sentido nao posso comparar os discursos áquilo que me tem sido transmitido pelos Maleku. No entanto ao reler este livro encontro várias semelhancas entre o seu modo de ver a vida e a dos Maleku, e que creio ser parte daquilo que é ser indígena. Uma dessas semelhancas é a grande capacidade de observacao que reconheco tanto a Tuiavii como a Luís.
Sem vos querer maçar com o estilo de vida Maleku, deixo-vos algumas citacoes do livro que revejo aqui:

"Esses baús de pedra encontram-se em grande número e muito próximos uns dos outros; nenhuma árvore, nenhum arbusto os separa; encontram-se ombro a ombro como homens, e em cada um deles há tantos Papalaguis como numa aldeia de Samoa"

"Resumindo: baús de pedra com os seus muitos homens, fundas gretas de pedra correndo de um lado para o outro, quais mil e um rios, com seres humanos lá dentro, barulho e estrondo, poeira negra e fumo por toda a parte, árvore alguma no horizonte e nada de céu azul, nada de ar puro ou nuvens - a isto chama o Papalagui cidade, criacao de que muito se orgulha"

"A verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama de dinheiro. Quando se fala a um europeu do Deus do Amor, ele faz uma careta e sorri (...). Quando lhe estendem uma peca de metal redondo e brilhante ou um papel grande e forte, logo seus olhos brilham e a saliva se lhe assome aos lábios"

"Crede que há na Europa homens que encostam a arma de fogo á sua própria fronte, pois preferem deixar de viver do que viver sem coisas"

"Todos os Papalaguis tem uma profissao. É díficil explicar-vos o que isso é. É qualquer coisa que uma pessoa devia ter vontade de fazer, mas que raramente tem"

"O missionário do Papalagui ensinou-nos, em primeiro lugar o que é Deus; desviou-nos dos nossos antigos Deuses, dizendo que se tratavam de ídolos, isentos da natureza divina do verdadeiro Deus"


Tanto para os Tiavéa como para os Maleku o importante é "ter o suficiente para comer, um tecto que nos abrigue e prazer em participar nas festas, no largo da aldeia". O estilo de vida Maleku prima pela simplicidade, mas manter a sua cultura viva nos próximos anos será tudo menos simples.
O Papalagui, um livrinho a por na lista de prendas para este Natal :)

2 comentários:

Cátia disse...

Bravo! Também gostei imenso do livro e a experiência de lê-lo aí é realmente única ;)

Asita disse...

Fico muito contente que o livrinho tenha dado jeito :) Mas tou a ficar tristonha por não termos mais relatos animados de uma cultura tão diferente da nossa...mas tou super feliz por vos ter de volta...que miscelânea de sentimentos